E Deus respondeu: Eu sou o que sou… EU SOU (Ex 3, 13-19). 
Os homens da bíblia não se atrevem a definir nem a descrever Deus, nem sequer a nomeá-lo. Definir é de certa forma, abarcar alguma coisa, e o Senhor Deus é in-abarcável. Nome, para os semitas, equivale a pessoa; e dar nome é, em certo sentido, aprender e medir a essência da pessoa, e Deus não é mensurável.
Por isso tudo, a Bíblia, a respeito de Deus, faz um jogo por alto ou transcendental: passa por alto e evita dar-lhe um nome. Em vez disso, usa uma forma rústica de designar a Deus: “O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó”. Seguindo a mesma linha, Paulo falará do “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. Se quisermos representar ou designar a Deus: Aquele que se revelou aos patriarcas; Aquele que se revelou em Jesus Cristo. Para referirmo-nos a Deus vale só o pronome, não o nome.
O INOMINÁVEL
É por isso que os israelitas não podiam pronunciar o nome de Javé. Só por baixo desse detalhe palpita uma grande carga de profundidade: a transcendência do Deus de Israel.
O versículo que serve de reflexão para esta matéria, citado acima, nos diz que o verdadeiro Deus não tem nome. É precisamente o Inefável. Não pode ser classificado. Não pode ser qualificado. Nem as palavras mais altas e inesperadas poderão encerrá-lo em suas fronteiras. Não está na órbita da fonética articulada mas na do Ser. Deus não se deixa manipular. Os silogismos não o alcançam. As dialéticas jamais vislumbrarão um segmento do fulgor de seu Rosto bendito.
Nosso Deus é muito mais amplo que os horizontes dos pampas. Mesmo que juntássemos os adjetivos mais brilhantes da linguagem comum, mesmo que tirássemos todas as palavras de todos os dicionários e as colocássemos em fila, ou, com tudo isso armássemos um monumento mais profundo que os abismos, mais largo que os espaços e mais alto do que os céus, seria inútil, as palavras não valem nada, Ele é muito mais, é outra coisa, está em outra órbita. É outra coisa e mais inefável que as melodias que nos chegam de outros mundos. Não é som é Ser.
Na noite profunda da fé, quando a alma, como terra cega e sedenta se estende docilmente para a ação divina e acolhe o Mistério infinito como chuva mansa que cai, inunda e fecunda… só assim, entregues, receptivos, começaremos a “entender” o Ininteligível.
O OBSÉQUIO DA FÉ
Quero dizer: Deus não é para ser “entendido” analiticamente porque nunca entrará em nosso jogo acrobático de silogismos, premissas e conclusões, induções e deduções. “Entendemos” Deus de joelhos: assumindo-o, acolhendo-o, vivendo-o. Não pode ser entendido no sentido intelectual, mas no vital. Conquistar (intelectualmente) a Deus? Nesse sentido, o Senhor Deus é “inexpugnável”. O difícil e necessário é deixar-se conquistar por Ele.

Se não é possível alcançá-lo analiticamente, então Deus é Mistério. Não quer dizer que é uma coisa misteriosa, mas que é inacessível à potência intelectual: como diz a Bíblia nunca poderemos vê-lo face a face.
Em todos os sentidos, Deus é totalmente diferente. Um processo que nos leva a outros seres ou a outras verdades não seria capaz de levar-nos a Ele, como também as representações que são aptas para expressar outros seres não são capazes de expressá-lo.
Mesmo depois que a lógica nos obrigou a afirmar que Deus existe, seu mistério continua inviolado. Nossa razão não chega até Ele. Mas ainda, antes de toda dialética e de toda representação, nosso espírito já afirma que Aquele que é alcançado pela dialética e pela representação, está além disso tudo. E essa afirmação, passando das trevas para a luz e da luz para as trevas, permanece sempre em pé.
O parágrafo acima ressalta o “obséquio” da fé: antes, além e aquém da dialética e da representação, o verdadeiro crente entrega-se na escuridão, e só então começa a entender o mistério e vê nascer a certeza.
Aquele que deverá juntar-se em uma união com Deus não deverá ir entendendo mas crendo… porque por mais que possamos entender de Deus, estaremos infinitamente longe dele.
O CRENTE “ADULTO”
O crente “adulto” é aquele que crê entregando-se, não se preocupa em “pôr” Deus na claridade de uma indução aristotélica. Sabe perfeitamente que o Deus da fé, embora seja “demonstrável” com absoluta certeza, vai continuar sendo sempre um mistério que nossa inteligência jamais conseguirá “dominar” enquanto vivermos.
Que faz? O “adulto” na fé supera todas as distâncias e limitações inerentes à fé, saindo de si mesmo; solta-se de todos os corrimãos intelectuais que lhe são proporcionados pelo raciocínio e dá o grande salto no vazio em plena noite escura, abandonando-se ao absolutamente Outro. É um salto no vazio porque o crente abandona as “razões” e se deixa cair no abismo profundo que é o Mistério.
“REMOVENDO MONTANHAS”
Esse é o grande momento da fé. Eis o ato radical em que subjaz todo seu mérito e valor transformador. Só é bonito crer na luz quando é noite. Creio que por trás desse silêncio Inominado, vós respirais. Creio que por trás dessa escuridão, brilha o vosso Rosto. Mesmo que tudo me saia mal, mesmo que chovam infortúnios, creio que me amais. Mesmo que tudo pareça fatalidade, mesmo que nos pareça que só o absurdo manda no mundo, e embora eu veja os homens odiarem e as crianças chorarem, os maus triunfando e os bons fracassando, mesmo que a tristeza reine e tenha sido degolada a pomba da paz, mesmo que tenha vontade de morrer… eu creio, eu me entrego a vós. Sem vós, que sentido teria esta vida? Vós sois a Vida Eterna.
Essa é a fé que transporta montanhas e dá aos crentes uma consistência indestrutível. Com esse “salto”, compreende-se que o ato de fé seja um obséquio. Não há dúvida de que, pela parte de Deus, a fé é um dom, o primeiro dom. Mas eu acho que, por parte do crente, há um belo e fundamental ato de gratuidade.
Que a graça de Deus esteja com todos vós!