DESMISTIFICAÇÃO DO PECADO

Novembro 27, 2008

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                                              O sol da liberdade

O erudito biblista mexicano, Porfírio Miranda, depois de estudar a Bíblia sob a ótica da teologia da libertação, chega a seguinte conclusão:

“A tese mais revolucionária, onde, em contraste com todas as ideologias ocidentais, coincidem Bíblia e Marx é esta: o pecado e o mal que se estruturam em um sistema civilizador escravizante, não são inerentes à sociedade e à história; um dia começaram por obra humana, e portanto são suprimíveis.”

Estes exegetas redescobriram que o verdadeiro sentido do “pecado” para a Bíblia é a injustiça. O Deus da religião bíblica é um Deus que se revela em seus atos de justiça onde se liberta o oprimido e explorado, só pode ser “conhecido” fazendo justiça, e por isso rejeita os cultos religiosos; o sacrifício que exige é a justiça para o homem, o amor ao homem. Portanto, o fato da desvirtuação atual da palavra pecado cria um sério problema de comunicação para estes teólogos. Diz Miranda:

“Pecadores é tradução equívoca, a não ser que já se suponha que o único pecado é a injustiça; coisa que os Setenta sem dúvida supõem, como bons conhecedores que eram da Bíblia, mas nossas línguas modernas não. É digno de nota que em outros tempos “obras de piedade” significasse sem equívocos uma conduta para com o próximo, e hoje equivalha praticamente a orações e exercícios religiosos; a palavra “piedoso” sofreu o mesmo processo evasivo. Toda a história do cristianismo aí está para confirmar isto.”

O teólogo cubano protestante Sérgio Arce, que faz uma das mais radicais interpretações da revolução como o método de Deus para criar, reconciliar e redimir, desenvolve o conceito de pecado como “a tentativa de deter o processo dialético do desenvolvimento do homem e da história numa etapa à qual os homens outorgam caráter de absoluto e final, de tal modo que daí em diante impedem a mudança” – esse processo está assentado nas relações sociais de produção – Arce diz que com o homem bíblico se inaugura uma história com futuro aberto que destrói o fatalismo cíclico da natureza deificada, como sustentam os homens do Oriente Médio.

Esta história aberta vê-se ameaçada, quando querem proclamar as virtudes e os valores relativos aos interesses de classes, épocas e nações como absolutos e finais, convertendo-se dessa forma em ídolos.

Portanto, a revolução na história é a destruição do pecado, daquilo que impede de colocar os homens em sua própria perspectiva histórica orientada para o processo contínuo da história, aquilo que tende a converter-se em sistema final para dividir os homens e explorá-los, e é um reconstruir a liberdade do processo de desenvolvimento humano que caminha para a perfeição em Deus.

 


O HOMEM COMO VALOR SUPREMO

Novembro 26, 2008

Diante da ética da libertação, a primeira coisa que aparece é que o homem vem ocupar o lugar central da atividade da fé. O religioso é valorizado “em função de seu significado para o homem.

 

Nessa ética o homem é o fundamento dos valores e não o Deus transcendente da teologia idealista.

 

Depois do evento Jesus, Deus não se distingue do homem. Deus não pode deixar de ser aquele que se fez homem. E nada sabemos de Deus fora do homem Jesus. Neste sentido a fé cristã é o contrário da religião. Não é Deus o centro da fé cristã, pois pelo movimento e pela própria direção da encarnação, Deus nos indica que é o homem quem deve ser o pólo de referência de nossa fé cristã. Para o homem de fé, Deus deixa de ser a preocupação central. É o homem o sacramento decisivo da presença de Deus no mundo. Para o cristão, é santo aquele que, a exemplo de Deus, se compromete realmente com o homem concreto; para o cristão, o homem se salva ou se condena no próprio momento em que se faz ou não solidário do homem.

A libertação do homem constitui o princípio, o meio e o fim da atividade de Deus. Falar de Deus é falar de acontecimentos históricos que fizeram e que farão do homem um ser livre. Falar corretamente de Deus é falar daquele que não tem outra determinação fora daquela de ser para o homem.

 

 

Na tradição bíblica veterotestamentária, o “conhecimento de Deus” está sempre em relação com o homem como valor central. Na fé bíblica conhecer a Deus é “fazer justiça” entre os homens. Desprezar o próximo e explorar o bóia-fria humilde e pobre, é ofender a Deus (Pr 14,12; Dt 24,14-15; Ex 22,21-23; Pr 17,5). Inversamente, “amar” e “conhecer” a Deus, é fazer justiça ao homem pobre e humilhado. Com base nisto, os profetas criticam a religião do culto e reclamam uma religião de justiça para o homem: restituir àquele que foi explorado, fazer justiça ao órfão que fica à mercê dos leguleios da época; amparar a viúva numa época em que o sistema social não se preocupava com ela; libertar os cativos, os escravos por dívida; partir o pão ao faminto; abrigar os marginalizados etc., e pregar o advento de uma nova ordem de relações em que as injustiças desaparecerão.

Esta tendência da religião profética de Israel chega à sua culminância no Novo Testamento nos textos como a parábola de Mateus 25,31-45, onde o critério usado para julgar o homem é a obra de justiça e defesa do pobre, do doente, do oprimido e perseguido. 

 

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Atitudes idênticas como a mostrada no vídeo acima, é o que Deus espera verdadeiramente, dos milhões de cristãos e de igrejas espalhados pelo mundo.

 


AMOR E LUTA DE CLASSES

Novembro 26, 2008
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                       O Reino de Deus é arrebatado à força (Mt 11,12). 

A fé cristã da libertação afirma que o amor, como virtude cristã fundamental, pode penetrar a realidade histórica do homem e deve incorporar-se nas estruturas dialéticas da realidade sociopolítica na qual se dá a vida humana.

Os teólogos advertem-nos que quando se entende o amor cristão a partir de uma perspectiva exclusivamente escatológica, isto é, como será na plenitude do reino de Deus, quando o homem “apresentar a outra face ao ser esbofeteado”, sem levar em consideração a situação histórica, o entendimento do amor torna-se ideologizante e tende a favorecer os dominadores. Em outras palavras, quando se priva o amor de seu fundamento material e social, quando não se leva em consideração a situação sociopolítica para determinar como se deve amar o próximo, converte-se o amor num aparato legitimador da opressão, num aparato ideológico para obrigar o oprimido e o explorado a “amar” seu opressor e seu explorador com resignação, para obrigá-lo a não rebelar-se, a não prejudicar seu irmão explorador ou opressor, a não perturbar a paz e a “unidade cristã” que deve existir entre “todos os filhos de um mesmo Deus”.

Assim se declaram incompatíveis o amor e a violência. Com base nisto, CONVERTE-SE A “UNIDADE DA IGREJA” E DA PAZ EM APARATO IDEOLÓGICO DE OPRESSÃO. Neste contexto desconhece a natureza conflitiva e irreconciliável dos interesses de classe, e condenam-se em nome do amor os atos de defesa dos oprimidos na luta de classe. O amor, que biblicamente constitui o impulso à luta pela justiça, termina sendo justificador da opressão. Por isso os teólogos nos advertem de que se não entendemos o amor numa perspectiva histórica, ele termina sendo uma contradição de si mesmo. Para que o amor cristão possa realizar-se tem que optar pelos oprimidos e explorados na situação real, que é uma situação de interesses de classe em conflito irreconciliável. A decisão em favor de alguns e contra outros levanta o problema do próprio fundamento da ética cristã.

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A universalidade do amor cristão é uma abstração se não se faz história concreta, processo, conflito, superação de particularidade. Amor a todos os homens não quer dizer evitar defrontações, não é manter uma harmonia fictícia. AMOR UNIVERSAL É AQUELE QUE EM SOLIDARIEDADE COM OS OPRIMIDOS INTENTA LIBERTAR TAMBÉM OS OPRESSORES de seu próprio poder, de sua ambição de seu egoísmo. O amor para com os que vivem em condição de pecado objetivo exige de nós que lutemos para libertá-los dele. A libertação dos pobres e a dos ricos realiza-se simultaneamente. A isto só se chega optando resolutamente pelos oprimidos, ou seja, combatendo contra a classe opressora. Combater real e eficazmente, não odiar; nisto está a retidão, nova como o Evangelho: amar os inimigos. 

O amor é revolucionário o ódio é reacionário.
 

CONSEQÜÊNCIAS DA FÉ-IDEOLOGIA

Novembro 26, 2008

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    Bem-aventurados os humildes porque deles é o reino dos céus (Mt 5,3)

A fé cristã é uma atitude fundamental de compromisso com relação aos pobres e oprimidos em virtude da certeza radical de que é possível transformar o mundo com a justiça. Mas esta fé, atitude de esperança e compromisso com a justiça e com os pobres e oprimidos, não contém uma definição concreta e integral do mundo concreto em que se deve viver. Não pressupõe uma concepção do mundo traduzível numa ordem econômica e política concreta ou num sistema filosófico. Estas definições são dadas pela representação ideológica do mundo. São fornecidas pela própria ordem social do mundo em que se vive a fé, quer se trate do mundo hebreu, helenista, medieval, capitalista europeu, capitalista latino-americano ou socialista. A fé não é uma ideologia, embora tenha que exprimir-se numa forma de vida concreta que supõe uma ideologia.

 

Teoricamente, a fé se exprime em teologia e esta se exprime nas categorias de pensamentos e na linguagem de seu tempo. Em outras palavras, a teologia é escrita com a compreensão do mundo fornecida pela cosmovisão e pela ideologia desse momento e com as definições de verdade e de mentalidade que a linguagem da época fornece.

Deveria pelo menos ficar claro que a pretensão, muitas vezes manifestada pela hierarquia eclesiástica, de manter, não só a distinção, mas também a separação entre fé e ideologias para proteger melhor aquela, não tem sentido algum em teologia. A fé não é uma ideologia, certamente, mas só tem sentido como fundadora de ideologias.” ( teólogo Juan Luís Segundo).

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Esta definição de fé e ideologia e a maneira de relacioná-las de forma apropriada têm um duplo efeito. Primeiro, a fé cristã liberta as teologias da escravidão dos dogmas religiosos, porque lhe fornece um critério para refletir criticamente sobre os elementos ideológicos dessas teologias. Segundo, esclarece a função da ideologia na expressão da fé, libertando-o do bloqueio religioso que lhe impede a adoção de ideologias contrárias a outras já incorporadas às teologias da Igreja.

EXEMPLO DESSA NOVA LIBERDADE para a crítica ideológica do magistério da Igreja, é este artigo do mexicano Luís del Valle, professor do Instituto de Estudos Superiores de Teologia, onde diz:

- A fé, como absoluto no cristianismo, relativiza sua teologia e a faz perguntar-se continuamente se seus pensamentos e conclusões apóiam ou não sua fundamental obediência a Deus, expressa em sua opção pelo oprimido… no decorrer da história foram sendo destruídas teologias que, brotando de uma situação de dominação-opressão, não conscientemente assumida, se convertem em ideologias que reforçam os sistemas de exploração, lançando um véu sobre a situação global para analisar somente a consciência individual ou enfatizando a necessidade de as coisas continuarem como estão ou jogando a solução para a outra vida. A fé, compromisso real com o oprimido, porque Deus se comprometeu com ele em Jesus Cristo, leva-nos a deixar tais ideologias a fim de abrir caminho para outras novas, mais de acordo com a verdadeira humanização de todos.

ESTA DIFERENCIAÇÃO LIBERTA os homens da obediência a teologias e doutrinas institucionais que não correspondam às exigências da fé, segundo se entendam estas exigências a partir da situação concreta em que é preciso viver esta fé. A teologia se converte em crítica ideológica desde a perspectiva da fé. A “verdade” das teologias é julgada agora desde a situação concreta da práxis da fé, práxis do cristão. A teologia se converte em processo de prática-reflexão. Em outras palavras, o critério de verdade, que se usa para julgar a “verdadeira” fé se usa agora para julgar a “verdadeira” teologia.


A CIDADE DO HOMEM

Novembro 26, 2008

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Separar nossa vida do mundo seria um erro grosseiro e fatal, significaria gorar os planos divinos e frustrar nossa própria capacidade de realização. Nossa vida está inserida na vibração e no florescimento de toda a criação e não poderia ser diferente. Nosso trabalho só será fecundo se tiver por objetivo a restauração de todas as coisas em Cristo, se reaviar o mundo pelos caminhos da primeira harmonia, sem inversão de valores, sem alteração de fins, sem adulteração de meios. É evidente que isso só será possível se possuirmos a “ciência dos santos”.

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As criaturas só serão verdadeiras quando se apresentarem como caminho, como itinerário e não como lugar de descanso; só serão válidas e sua convivência proveitosa quando forem reflexos do eterno no tempo, manifestação da passagem divina, luzes da cidade de Deus. Quem se diz cristão não pode “cruzar os braços” para a realidade, refugiar-se em algum templo e achar que com isso estará salvo de julgamento. Ledo e vital engano, os olhos de Deus estarão sempre mais atentos para aqueles que conhecem a sua Palavra. 

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Em nossos dias aceita-se universalmente de que o pensamento hebreu-cristão dos textos bíblicos fundamentais não é um pensamento de caráter metafísico mas histórico. Sua preocupação fundamental não é a busca e a contemplação do ser das coisas, mas a construção de um reino de justiça. Deus não é uma idéia nem um princípio, mas uma força histórica que libertou o povo de sua escravidão e exploração no Egito para enviar o povo a construir um reino de paz e justiça para os pobres e oprimidos.
O Reino de Deus é concebido nos profetas e no Novo Testamento como um reino de estrutura econômica e política (a frase que traduz “meu reino não é deste mundo”, sabemos hoje que deve ser traduzida “meu reino não é dessa ordem de relações sociais”, ou “deste tempo”).

O teólogo e historiador Alejo Carpentier fez um exposição bastante clara sobre isso: “No reino dos céus não há grandeza a conquistar, visto que lá tudo é hierarquia estabelecidada, incógnita. Por isso, acabrunhado pelos sofrimentos e tarefas, belo dentro de suas misérias e capaz de amar no meio das feridas, o homem só pode encontrar sua grandeza, sua medida máxima no reino deste mundo.”

Mãos à obra! Amém!

 


O REINO JULGA A IGREJA

Novembro 26, 2008

 

 

 

Conheço as tuas obras” (Ap 2-3).f00028192016c1203ll1

 

 

 

 

 

 

 

 

A luta que a vida do Ressuscitado empreende contra a morte ocupa um lugar central no Apocalipse, é o marco da missão da Igreja como sinal do Reino. A morte e seus sequazes foram vencidos:“Não conseguiram vencer, nem se encontrou mais o seu lugar no céu” (Ap 12, 8).

  

O confronto continua na terra, no tempo da comunidade cristã, que deve ser enconrajado pela convicção de que a vitória já foi alcançada. “Então, eu vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existe. E vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém descer do céu, de junto de Deus… e não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque as primeiras coisas terão passado” (Ap 21, 1-4).

   

A tarefa da Igreja é dar testemunho dessa morada e desse mundo novo, ela anuncia o Reino em que o Senhor se faz presente na história humana. No cumprimento dessa missão forja-se a comunidade dos discípulos de Jesus. A mensagem do Mestre tem como centro a proclamação do Reino, que nele mesmo se torna presente e chega até nós. Este reino, sem ser uma realidade separável da Igreja, transcende seus limites visíveis. Porque se realiza de certo modo onde quer que Deus esteja reinando mediante sua graça, seu amor vencendo o pecado e ajudando o homen a crescer até conseguir a grande comunhão que lhe é oferecida em Cristo. Esta ação acontece também no coração dos homens que vivem fora do âmbito perceptível da Igreja. 

   

A Igreja, a comunidade de discípulos de Cristo, significa o Reino à medida que aceita ser julgada por ele em seu agir histórico. Este julgamento não ocorre só ao final da história. Começa desde já.

O juízo de Deus indica claramente que o dom de seu Reino implica exigências para a Igreja. A matéria do juízo é, com efeito, uma conduta. “conheço as tuas obras” diz o Senhor a cada uma das sete Igrejas do Apocalipse. Deus julga a partir do conteúdo do Reino: Reino de paz, de amor, de justiça. Mateus recorda a perspectiva cristológica e histórica desse juízo (cap. 25). A Igreja, como cada uma das pessoas, é julgada em sua relação com Cristo. E são as obras de justiça, amor, solidariedade que dão conteúdo a essa relação.

   

Se a Igreja se desvincular do Reino, ver-se-á sem projeto transcendente e sem capacidade crítica sobre o presente. Adaptar-se-á docilmente às situações ou a elas se oporá em função de seus interesses terrenos e não das exigências de Deus ou das necessidades dos pobres. Isto é, perderá a esperança no Deus que “fez novas todas as coisas” (Ap 21, 5).

 

  A Igreja não se identifica com o Reino, mas ao formar-se como comunidade, ao se organizar, deve dar testemunho; deve comprometer-se em função do Reino para poder emitir, a partir dele, um juízo sobre a história e também sobre si mesma. Para a comunidade cristã, e não só para cada cristão, buscar o Reino e a justiça significa duas coisas: querer ser sinal do Reino e aceitar ser julgada por ele.

Buscar o Reino significa também, ser sacramento de vida em meio à morte que se faz presente hoje entre nós através da persistente violência estrutural, a violência terrorista de facções distintas e a indiscriminada violência repressiva. Significa esperar o encontro definitivo com o Deus da vida.

 

 


QUAL É O TEU NOME?

Novembro 26, 2008

E Deus respondeu: Eu sou o que sou… EU SOU (Ex 3, 13-19). 17872571

Os homens da bíblia não se atrevem a definir nem a descrever Deus, nem sequer a nomeá-lo. Definir é de certa forma, abarcar alguma coisa, e o Senhor Deus é in-abarcável. Nome, para os semitas, equivale a pessoa; e dar nome é, em certo sentido, aprender e medir a essência da pessoa, e Deus não é mensurável.

Por isso tudo, a Bíblia, a respeito de Deus, faz um jogo por alto ou transcendental: passa por alto e evita dar-lhe um nome. Em vez disso, usa uma forma rústica de designar a Deus: “O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó”. Seguindo a mesma linha, Paulo falará do “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. Se quisermos representar ou designar a Deus: Aquele que se revelou aos patriarcas; Aquele que se revelou em Jesus Cristo. Para referirmo-nos a Deus vale só o pronome, não o nome.


O INOMINÁVEL

É por isso que os israelitas não podiam pronunciar o nome de Javé. Só por baixo desse detalhe palpita uma grande carga de profundidade: a transcendência do Deus de Israel.

O versículo que serve de reflexão para esta matéria, citado acima, nos diz que o verdadeiro Deus não tem nome. É precisamente o Inefável. Não pode ser classificado. Não pode ser qualificado. Nem as palavras mais altas e inesperadas poderão encerrá-lo em suas fronteiras. Não está na órbita da fonética articulada mas na do Ser. Deus não se deixa manipular. Os silogismos não o alcançam. As dialéticas jamais vislumbrarão um segmento do fulgor de seu Rosto bendito.

 

731042841Nosso Deus é muito mais amplo que os horizontes dos pampas. Mesmo que juntássemos os adjetivos mais brilhantes da linguagem comum, mesmo que tirássemos todas as palavras de todos os dicionários e as colocássemos em fila, ou, com tudo isso armássemos um monumento mais profundo que os abismos, mais largo que os espaços e mais alto do que os céus, seria inútil, as palavras não valem nada, Ele é muito mais, é outra coisa, está em outra órbita. É outra coisa e mais inefável que as melodias que nos chegam de outros mundos. Não é som é Ser.

Na noite profunda da fé, quando a alma, como terra cega e sedenta se estende docilmente para a ação divina e acolhe o Mistério infinito como chuva mansa que cai, inunda e fecunda… só assim, entregues, receptivos, começaremos a “entender” o Ininteligível.


O OBSÉQUIO DA FÉ

Quero dizer: Deus não é para ser “entendido” analiticamente porque nunca entrará em nosso jogo acrobático de silogismos, premissas e conclusões, induções e deduções. “Entendemos” Deus de joelhos: assumindo-o, acolhendo-o, vivendo-o. Não pode ser entendido no sentido intelectual, mas no vital. Conquistar (intelectualmente) a Deus? Nesse sentido, o Senhor Deus é “inexpugnável”. O difícil e necessário é deixar-se conquistar por Ele. 

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Se não é possível alcançá-lo analiticamente, então Deus é Mistério. Não quer dizer que é uma coisa misteriosa, mas que é inacessível à potência intelectual: como diz a Bíblia nunca poderemos vê-lo face a face.

Em todos os sentidos, Deus é totalmente diferente. Um processo que nos leva a outros seres ou a outras verdades não seria capaz de levar-nos a Ele, como também as representações que são aptas para expressar outros seres não são capazes de expressá-lo.

Mesmo depois que a lógica nos obrigou a afirmar que Deus existe, seu mistério continua inviolado. Nossa razão não chega até Ele. Mas ainda, antes de toda dialética e de toda representação, nosso espírito já afirma que Aquele que é alcançado pela dialética e pela representação, está além disso tudo. E essa afirmação, passando das trevas para a luz e da luz para as trevas, permanece sempre em pé.

O parágrafo acima ressalta o “obséquio” da fé: antes, além e aquém da dialética e da representação, o verdadeiro crente entrega-se na escuridão, e só então começa a entender o mistério e vê nascer a certeza.

Aquele que deverá juntar-se em uma união com Deus não deverá ir entendendo mas crendo… porque por mais que possamos entender de Deus, estaremos infinitamente longe dele.


O CRENTE “ADULTO”

O crente “adulto” é aquele que crê entregando-se, não se preocupa em “pôr” Deus na claridade de uma indução aristotélica. Sabe perfeitamente que o Deus da fé, embora seja “demonstrável” com absoluta certeza, vai continuar sendo sempre um mistério que nossa inteligência jamais conseguirá “dominar” enquanto vivermos.

Que faz? O “adulto” na fé supera todas as distâncias e limitações inerentes à fé, saindo de si mesmo; solta-se de todos os corrimãos intelectuais que lhe são proporcionados pelo raciocínio e dá o grande salto no vazio em plena noite escura, abandonando-se ao absolutamente Outro. É um salto no vazio porque o crente abandona as “razões” e se deixa cair no abismo profundo que é o Mistério.

  

“REMOVENDO MONTANHAS”

Esse é o grande momento da fé. Eis o ato radical em que subjaz todo seu mérito e valor transformador. Só é bonito crer na luz quando é noite. Creio que por trás desse silêncio Inominado, vós respirais. Creio que por trás dessa escuridão, brilha o vosso Rosto. Mesmo que tudo me saia mal, mesmo que chovam infortúnios, creio que me amais. Mesmo que tudo pareça fatalidade, mesmo que nos pareça que só o absurdo manda no mundo, e embora eu veja os homens odiarem e as crianças chorarem, os maus triunfando e os bons fracassando, mesmo que a tristeza reine e tenha sido degolada a pomba da paz, mesmo que tenha vontade de morrer… eu creio, eu me entrego a vós. Sem vós, que sentido teria esta vida? Vós sois a Vida Eterna.

Essa é a fé que transporta montanhas e dá aos crentes uma consistência indestrutível. Com esse “salto”, compreende-se que o ato de fé seja um obséquio. Não há dúvida de que, pela parte de Deus, a fé é um dom, o primeiro dom. Mas eu acho que, por parte do crente, há um belo e fundamental ato de gratuidade.

Que a graça de Deus esteja com todos vós!

 

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A PAZ DIVINA

Novembro 26, 2008

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Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou, a paz que o mundo desconhece
(Jo 14, 27).

                            O QUE NÃO É A PAZ

Existem temas que se tornam mais evidentes quando definimos claramente, o oposto daquilo que se pretende. Desta forma, vamos então esclarecer o que não é a paz:
Essencialmente não é saúde. Há pessoas que até conseguem ter paz na doença, mas basicamente, a medicina pode dar-nos saúde sem nos dar a paz.
Paz não é serenidade exterior. Pois esta, pode perfeitamente coexistir com frieza íntima, com a mágoa, com certa dose de ruindade, com o orgulho.
Também, não é cultura. Há analfabetos cuja paz causou inveja a Herman Kahn no interior de Portugal.
É poder? Não. Se fosse, gente com muito poder não tomaria tranqüilizantes, e no entanto…
Beleza não é, quantas beldades famosas e não famosas ingeriram grandes quantidades daqueles “comprimidinhos”.
Paz não é juventude. Milhares de jovens depressivos pelo mundo, regurgitando a vida.
Nem tampouco tranqüilidade psicológica. Pois enquanto houver injustiça e exploração na face da terra, o homem de paz não estará tranqüilo. Mas terá a paz de quem sabe honestamente que presta aos irmãos sua cota de solidariedade.
É bom que não se confunda tranqüilidade psicológica com estagnação, isto é natural nos animais. Por isso não progridem. Morrem como nasceram, nem melhores nem piores.
Enfim, não é prazer, não é entusiasmo… não é riqueza. Esta advertência deixei por último, para realçá-la. É o equívoco da maioria. Condicionados pela moldura burguesa, muitos julgam que o dinheiro pode comprar a paz, por ser capaz de comprar tudo. Quase tudo, pois a paz escapole como enguia em dedos ávidos. O rei Luís Felipe invejou a paz do Cura d’Ars, e este homem não teve mais que uma maçã para ofertar ao filho do Rei.A paz que o dinheiro ilude poder comprar é a paz entre aspas do bem-estar burguês, a “paz” que conhece altíssimo índice de neuropatas e miolos estourados.

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                  A VERDADEIRA PAZ – CRISTO JESUS
 

A verdaeira paz vem do “alto”. De repente enxergamos que a paz de Cristo é sempre leveza de consciência e muitas vezes rude batalha. “Só os violentos arrebatam a paz do Reino” (Mt 11, 12). Cristo não veio até nós para nutrir ilusões. Veio para nos dar a paz de verdade, “a paz que o mundo não pode dar”. É preciso ver se é este o ideal que almejamos com nossa prece: ” A burguesia tem a obsessão da cobiça; sua vida sexual é insípida e hipócrita; seus padrões familiares viciados; sua submissão ao último grito da moda, degradante; sua rotinização mercenária da existência, intolerável; sua visão da vida, tacanha e melancólica; etc. etc. Este quadro, percebe-se sem dificuldade, resulta de uma vergonhosa escravização a tudo quanto deveria ser usado com “a gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. Por isso é que não gera paz. Porque escraviza.
A paz não é uma conquista de escravos. Nesse sentido, mas não apenas nesse, Cristo é literalmente libertador do homem, promotor da paz (“Príncipe da Paz”), pela unidade que inspira em nossa vida, levando-nos a referir todo o conteúdo de nossa existência a um denominador comum Deus. Daí, Agostinho de Hipona exclamar arroubado com a descoberta: “Tarde demais te encontrei, ó verdade sempre nova e sempre bela. Tu nos fizeste para Ti, e inquieto andará o nosso coração enquanto não descanse em Ti.” Era a paz encontrada que ele estava agradecendo. Mas só chegou a este canto porque passou pela escola da oração. Sem oração, toda a paz cristã termina em bolha de sabão, como a paz burguesa.

A PAZ DE CRISTO, meu irmão e minha irmã!


A ÚLTIMA VITÓRIA

Novembro 26, 2008

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E (Moisés) resistiu sem temor, como se visse o invisível (Hb 11, 27).

                                   A JORNADA DA FÉ

Quando vivem, dia após dia, buscando o Senhor, o que mais desconcerta os caminhos da fé é o silêncio de Deus: “Deus é aquele que sempre se cala desde o princípio do mundo; esse é o fundo da trajédia”, dizia Unamuno.
Nossos olhos foram estruturados para a posse e a evidência. E só descansam satisfeitos depois de atingido o objetivo. Da mesma forma os nossos ouvidos estão destinados a aprender o mundo dos sons, e só se aquietam também, quando este objetivo é alcançado. E assim, diferentes potências armam a estrutura humana: visual, auditiva, sexual, afetiva, intelectiva, intuitiva, endócrina, neurovegetativa… Cada uma delas tem seus mecanismos de funcionamento e seu objetivo. Ao alcançarem o objetivo, as potências descansam. Antes, estão inquietas. Enfim, o homem num todo foi estruturado para a evidência (posse).

SUPERPOTÊNCIA HUMANA

Mas aqui está o mistério: mesmo depois de colocar todas as potências em funcionamento e alcançar todos os objetivos, o homem fica insatisfeito. Por que será? Será que o homem é mais do que a soma de todas as potências? A resposta é sim. O elemento constitutivo do homem é uma superpotência enterrada e que dá sustentação a todas as outras.
Sendo fotografia do Invisível e ressonância do Silencioso (Gn 1, 26-27), o homem não só é portador de valores eternos, mas é ele mesmo um poço infinito. Incontáveis criaturas jamais conseguirão encher esse poço. Só um Infinito pode ocupá-lo por completo. Daí o motivo das diversas inquietudes do homem.
Cada ato de fé e de oração é uma tentativa de posse. As forças de profundidade (superpotências) entram em funcionamento, suspiram e aspiram ir de encontro ao seu Centro de Gravidade, tentam incessantemente “alcançar a caça”, mas quando conseguem chegar no umbral de Deus, quando o crente pensa que atingiu seu objetivo, Deus se desvanece como em um sonho, convertendo-se em ausência e silêncio. O crente fica sempre com um travo de frustração. Essa decepção sutil deixada pelo “encontro” com Deus é intrinsicamente inerente ao ato de fé.

CLAMANDO ATRÁS DE TI

A vivência da fé a vida com Deus é isso, ao mesmo tempo uma aventura e uma desventura, um sempre “sair clamando atrás de ti”. Aqui começa a odisséia eterna dos que buscam a Deus em espírito e verdade, uma história pesada e muitas vezes monótona, capaz de acabar com qualquer resistência. Parece um Rosto perpetuamente fugitivo e inacessível: como que se aproxima e se afasta, como que se concretiza e se desvanece. O profeta Jeremias experimentou com terrível vivacidade esse silêncio de Deus: Senhor depois de ter suportado por ti, ao longo de minha vida, toda espécie de atentados, enganos e assaltos, afinal, será que não passarás de um reflexo, um Simples vapor d’água? (Jr 15, 15-18).

A FÉ NÃO É SENTIR MAS SABER

Que aconteceu com Jesus nos últimos momentos de sua agonia? Aquilo teve todas as características de uma crise pelo silêncio de Deus. Mas Jesus teve uma reação magnífica, sabendo distinguir entre o sentir e o saber. Segundo os entendidos, nesse momento Jesus tinha perdido quase todo o seu sangue. O primeiro efeito dessa hemorragia foi uma desidratação completa, fenômeno em que a pessoa sofre uma dor aguda ou mesmo uma sensação asfixiante e desesperada. Com efeito disso, uma sede de fogo apoderou-se de Jesus, tal como a sede experimentada pelos soldados exangues no campo de batalha. Nenhum líquido pode saciar essa sede, só uma transfusão de sangue. Por causa dessa perda de sangue, Jesus teve uma febre altíssima que originou o chamado “delirium tremens”. A essa altura Jesus estava mergulhado em profunda agonia. Além disso, obediente à vontade do Pai, estava morrendo em plena juventude, abandonado por todo mundo, e pelos discípulos, traído por um, renegado por outros, sem prestígio sem honra, com uma sensação de fracasso (Mt 23, 37).

A VITÓRIA SOBRE A MORTE

Mas tudo isso foi a sensação. E a fé não é sentir é saber. Jesus nunca foi tão magnífico como nos últimos instantes de sua agonia. Como que acordando de um pesadelo, abriu os olhos, travou seu último combate: o combate da certeza contra a evidência, do saber contra o sentir. E do último combate nasceu a última vitória. Sem falar, disse: Pai querido, não te sinto, não te vejo. Minhas sensações interiores me dizem que estás longe, que te transformaste em fumaça, em sombra fugitiva, em distância sideral, em vazio cósmico, não sei, em nada. Entretanto, contra todas essas impressões, eu sei que estás aqui, agora, comigo; e “em tuas mãos entrego minha vida” (Lc 23, 46). Em plena escuridão, Jesus deu um salto mortal em um abismo profundíssimo, sabendo que o Pai o esperava lá embaixo com os braços abertos. E não se enganou: acordou nos braços do Pai. Foi um final de glória. O Pai não o havia preservado da morte, mas haveria de resgtá-lo bem depressa de suas garras.

Que a sua vitória seja a nossa também. Amém!